Uma reunião interna na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Alvorada, em Ribeirão Cascalheira, se transformou em uma crise pública que mobilizou prefeitura, servidores, Ministério Público e moradores. O encontro, realizado na terça-feira (18), teria começado como uma conversa sobre limpeza da unidade, mas terminou com clima tenso e relatos de ameaça de demissões, segundo funcionários.
O caso ganhou repercussão após um áudio da reunião vazar em grupos da cidade, supostamente gravado por alguém de dentro da equipe, mesmo após a ordem para que todos deixassem os celulares sobre a mesa.
Com a repercussão, a prefeita Elza Fernandes publicou um vídeo no Instagram da Prefeitura, ao lado da funcionária responsável pela limpeza e da secretária de Saúde, Leilivania, para rebater as críticas e negar qualquer prática de coação.
O que diz a Prefeitura
No vídeo, a prefeita afirma que a reunião não teve caráter punitivo. “Não trabalho com humilhação. Se tem algo que não admito na minha gestão é diminuir funcionário”, declarou Elza.
Ela afirma que o encontro foi motivado por sucessivas dificuldades envolvendo a limpeza da unidade e atribui ao comportamento dos demais servidores da saúde a culpa da unidade não manter uma funcionária da limpeza por muito tempo. “Já é a quarta pessoa que passa por lá e não para ninguém por conta desse tipo de ocorrido”, diz a chefe do Executivo.
Por outro lado, os servidores negam que episódios como esse já tenham ocorrido e explicam que a culpa na verdade é da sobrecarga de trabalho, pois a funcionária teria que se responsabilizar pela limpeza de suas unidades. “Na reunião ela falou em enxugar a folha. Mas enxugar em cima de funcionário que ganha um salário mínimo pra limpar duas unidades de saúde?”, questiona uma servidora em áudio nas redes sociais.
Eles afirmam ainda que limpezas mais complexas, como a limpeza terminal da sala de vacina, não são feitas adequadamente por falta de pessoal: “A gente fica quieto e acaba fazendo, mas nunca expusemos isso na cidade.”
A prefeita acusou ainda uma jornalista de disseminar “fake news” sobre o caso e disse que a gravação da reunião teria sido enviada a Cuiabá. “Já tomamos todas as medidas necessárias e vamos resolver essa situação”, afirmou, mencionando que a polícia investiga quem gravou o encontro.
A secretária de Saúde, Leilivania, reforçou que o objetivo era “pedir colaboração dos servidores”, citando um episódio em que uma sala teria sido deixada suja após uma comemoração de aniversário.
A versão dos funcionários: “Nos sentimos como uma turma de bandidos”
Servidores da UBS contestam a narrativa da prefeita e dizem ter se sentido expostos e humilhados. Uma funcionária relatou que tudo começou após o derramamento de um refrigerante no chão: “Isso tinha que ser resolvido internamente pelo coordenador. Nunca deixamos bagunça. Derrubaram a coca-cola e, no dia seguinte, já fizemos a limpeza.”
Ela criticou o fato de a prefeita ter divulgado imagens da sujeira junto ao vídeo do seu pronunciamento: “Isso é uma vergonha, sair na mídia por causa de um refrigerante.”
Outra manifestação sobre a condução da reunião também foi feita. “No dia da reunião mandaram colocar os celulares em cima da mesa. Nos sentimos como uma turma de bandidos. Nunca houve uma reunião para elogiar o trabalho, só para chamar atenção.”
Tentativa de acionar o Ministério Público
Após o episódio, servidores tentaram agendar uma reunião com o Ministério Público para relatar o ocorrido, mas, segundo eles, não houve disponibilidade presencial. A resposta recebida foi: “O promotor não tem agenda para reunião, mas a denúncia pode ser feita pela ouvidoria no site.”
Clima segue tenso na cidade
O vídeo da prefeita, que pretendia esclarecer o caso, acabou acirrando ainda mais os ânimos. Enquanto a gestão nega coação, servidores insistem que houve exposição, pressão e ameaça de “enxugar folha”. A gravação da reunião, ainda não divulgada oficialmente, continua sendo compartilhada entre moradores.
É provável que novos desdobramentos ocorram nos próximos dias, especialmente caso o Ministério Público seja acionado formalmente ou se a polícia identificar quem fez a gravação.




